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quinta-feira, 15 de agosto de 2013

João Penetra e o desemprego no concelho de Alvito - 3

Ao repescar o boletim informativo da CDU/Alvito, publicado em 5 de Fevereiro de 2013, lemos,  mais uma vez, a forma leviana e enganadora, como se atropela as estatísticas oficiais relativas ao número de desempregados no concelho de Alvito.
 
Este Blog já tinha publicado dois textos sobre este tema: aqui e aqui

Sobe o lema Trabalho, Honestidade e Competência, publicamos parte do boletim informativo, da CDU/Alvito, onde está escrito, preto no branco, que se "eliminou, quase por completo, o número de desempregados em Vila Nova da Baronia e Alvito",  precisamente na altura em que estavam inscritos 134 desempregados nos centros de emprego.
 
 
ESTATÍSTICAS DO EMPREGO
 http://www.iefp.pt/estatisticas/MercadoEmprego/ConcelhosEstatisticasMensais/Paginas/Home.aspx
 
 

terça-feira, 30 de abril de 2013

CGTP e UGT querem grande mobilização no 1º de Maio

As centrais sindicais dizem que os portugueses devem aproveitar o 1º de Maio como dia de protesto face às políticas de austeridade. CGTP e UGT apelam, por isso, a uma grande mobilização, amanhã.

 

domingo, 10 de março de 2013

João Penetra e o desemprego no concelho de Alvito - 2

Publicámos o texto anterior, para tentar numa primeira abordagem se João Penetra, enquanto presidente da Câmara de Alvito, pratica ou não a arte da propaganda enganosa, pois tem sistematicamente passado para exterior a mensagem de que durante o seu mandato, tem praticamente salvado do desemprego os trabalhadores do concelho de Alvito.


A charlatanice sobre o desemprego  em Alvito, do presidente e vice-presidente da Câmara de Alvito, teve eco na comunicação social, (AQUI, AQUI, E AQUI) só comparável com a recente saga Miguel Relvas, ambos ilusionistas da realidade que os números sempre vão desmentindo. 

O quadro e figura que se apresentam de seguida, resumem às estatísticas do desemprego em Alvito desde 2006, nos respectivos meses de Janeiro, Abril, Julho, Agosto e Outubro, e se de algum erro enfermam é o de apresentarem valores inferiores, pois, alguns desempregados desistem de se inscreverem nos centros de emprego.

Ora, quando em Julho/Agosto  de 2010, João Penetra e o seu vereador Luís Beguíno garantem que no concelho de Alvito os desempregados são uma raridade, afinal estão inscritos no centros de emprego, 76 pessoas em Julho, e 88 pessoas em Agosto, como se comprova no quadro seguinte.

  http://www.iefp.pt/estatisticas/MercadoEmprego/ConcelhosEstatisticasMensais/Paginas/Home.aspx

Dizem os mais crentes em João Penetra que o número de pessoas inscritas no centro de emprego em Janeiro deste ano só dispara para 134, apenas porque o seu presidente anda mais distraído, pois já passa muito tempo a fazer propaganda no concelho de Viana, e por isso tem descorado a coordenação do milagreiro empreendedorismo municipal.



O desemprego em Alvito e no resto do País é um flagelo, como comprovam as estatísticas, e por muito que alguns dinossauros da política tentem ludibriar os mais incautos, em proveito de uma gestão auspiciosa da profissão que abraçam, a  vista do eleitorado alcança a verdade dos factos.

Como pode alguém pensar aventar para o concelho de Viana um candidato que teve um desempenho medíocre aqui mesmo ao lado,  façamos de conta que não demos por nada, e  fiquemos todos de boca calada.


quinta-feira, 7 de março de 2013

João Penetra e o desemprego no concelho de Alvito - 1

Numa série de textos vamos tentar perceber se João Penetra, enquanto presidente da Câmara de Alvito, pratica ou não a arte da propaganda enganosa, pois tem sistematicamente passado para exterior a mensagem de que durante o seu mandato, tem  praticamente salvado do desemprego os trabalhadores do concelho de Alvito. 

Será que por debaixo do seu camuflado tutelar barrete, também vem agora prometer acabar com a chaga do desemprego  no concelho de Viana do Alentejo? 

Vamos então transcrever na sua totalidade uma notícia do Jornal Público, de 18 de Agosto de 2010: 

"O milagre do pleno emprego no concelho de Alvito"

 

"Estamos em Agosto de 2010 depois de Jesus Cristo. Todo o Alentejo está ocupado por um dos mais elevados índices de desemprego do país... Todo? Não! Um pequeno concelho habitado por irredutíveis alentejanos resiste ao invasor.

Com as inevitáveis adaptações, este texto de Goscinny, um dos autores das aventuras de Astérix, assenta na perfeição na realidade social de Alvito. Este concelho, que faz parte do Baixo Alentejo, uma das regiões do país onde os elevados índices de desemprego são crónicos há várias décadas - em Junho cresceu 16,2 por cento comparativamente com o mês homólogo -, apresentava, segundo os dados do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), um dos mais baixos índices de inscritos no Centro de Emprego.

Luís Beguino, vice-presidente da Câmara de Alvito, confirmou ao PÚBLICO que no seu concelho se vive neste momento uma situação "que podemos classificar de pleno emprego". Como é que este milagre aconteceu num ponto da região do Alentejo, onde os autarcas dos seus 47 concelhos se debatem com o pesadelo do desemprego?

O autarca explica que o seu município accionou atempadamente o Gabinete de Apoio ao Desenvolvimento Económico municipal, que desenvolveu "intensos esforços" para sensibilizar os empresários locais ou nos concelhos periféricos a aceitar mão-de-obra residente em Alvito.

E assim os cerca de 40 desempregados que estavam registados no concelho "foram encaminhados pelo nosso gabinete", refere o vice-presidente, para ocupar postos de trabalhos sazonais, boa parte deles na exploração de Vale da Rosa, que produz uva de mesa sem grainha que é exportada para Inglaterra.

A solução encontrada pelo município alentejano para debelar o desemprego no seu concelho vem ao encontro de outro objectivo: evitar recorrer aos Programas de Ocupação. "Neste momento não temos ninguém a beneficiar destes programas", mas quando é necessário a "câmara não hesita", salienta o presidente da autarquia, João Penetra, dando conta do seu interesse em ver as pessoas desempregadas serem colocadas no sector privado.

Para além dos postos de trabalho facultados aos locais da terra, a Câmara de Alvito ainda conseguiu colocação para 10 dos cerca de 30 estudantes dos PALOP que estudam na Escola Profissional de Alvito, nos cursos de Restauração e Informática

Toda esta conversa publicada no Jornal Público, não passa de propaganda perigosa, reaccionária, provocatória para os desempregados e democratas, como mostram os números das estatísticas do emprego que iremos publicar no próximo Post.


terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Desempregados pagam o regresso de Portugal aos mercados financeiros


Peres Metelo hoje na TVI desmontou a tão propalada vitória do governo, no regresso de Portugal aos mercados: 
 «Esta emissão é amparada por um conjunto de quatro bancos, o que significa que estes bancos assumem o risco se, eventualmente, a emissão não for totalmente tomada». Ou seja, os bancos «assumem as sobras», num «bom negócio» para as instituições financeiras. 

Mas a que preço se conseguiu esta glorificada façanha:  

Segundo um relatório hoje tornado público, Portugal foi o 2.º país da OCDE que mais destruiu empregos.
 Portugal foi o segundo país da OCDE, depois da Grécia, onde a taxa de emprego mais caiu no 3.º trimestre de 2012, face ao mesmo período de 2011, recuando 2,5 pontos percentuais para os 61,9%. De acordo com os dados hoje divulgados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), na Grécia a taxa de emprego caiu 4,6 pontos percentuais (p.p.), para os 50,4%.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Troika quer que o governo apresente “plano B” para o orçamento


Uma dívida impagável, por muito que se roube nos salários.

Hoje foram divulgados os dados da execução orçamental para os primeiros nove meses do ano. Já ninguém acredita em nenhuma previsão deste governo de subalternos.
 
Todas as vozes sensatas, vindas de todos os quadrantes políticos, têm denunciado que as medidas de roubo generalizado propostas no orçamento do estado 2013, não vão atingir os objectivos de redução do défice propagandeado pelo governo Passos/Portas.
 
Mais grave ainda, com a notícia hoje vinda a público de que a Troika exige ao governo a  apresentação de um “plano B” para o orçamento, o descrédito aumenta ainda mais. Tanto a troika como o governo também não acreditam nas medidas agora propostas para conter o défice orçamental fixado para 2013.
 
A troika aparenta estar pouco confiante na fórmula que o governo encontrou para cortar no défice orçamental em 2013. Face a uma possível derrapagem no cumprimento das metas, idêntica à que se verificou este ano por causa da quebra das receitas fiscais, os representantes dos credores internacionais de Portugal pediram a Vítor Gaspar para que apresente, até Novembro, um pacote de medidas para reduzir a despesa, que servirá como uma espécie de “plano B”, se falhar o estratagema da “enorme subida de impostos”.

Um mês depois de Vítor Gaspar se ter substituído ao titubeante primeiro-ministro, no anúncio do “enorme” saque generalizado, a troika exige em Novembro “um plano B”, para puxarem fogo a tudo o que ainda mexa.
 
Já poucos aguentam estes medíocres "Chicago Boys". O melhor que estes rapazes têm a fazer é “saírem da sua zona de conforto”,  para apanharem boleia no Alfeite na flotilha de submarinos de Paulo Portas, na rota do velho estaleiro da construtora naval Blohm und Ernst Voss die Schiffswerft und Maschinenfabrik, em Hamburgo. Sem perda de tempo, durante a manobra de atracação, chamem a madrinha Merker, e peçam o dinheiro de volta aos cofres do estado português.
 

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Todos a Lisboa: 29 de Setembro


"As novas medidas anunciadas pelo Governo PSD/CDS constituem um brutal ataque às condições de vida dos trabalhadores e das trabalhadoras; uma enorme ofensiva que se abate contra os jovens, os desempregados, os reformados e pensionistas, a generalidade dos que vivem e trabalham em Portugal.
 
Esta é uma política que destrói a economia e o emprego e empurra o país para a destruição."

 

domingo, 16 de setembro de 2012

Governo de Passos Coelho com os testículos traccionados para a região inguinal

O Povo é quem mais ordena
Um primeiro-ministro que aterroriza os portugueses, incendiando o País, na tentativa de facilmente conduzir os mais frágeis ao holocausto do empobrecimento.

Um primeiro-ministro que considera que “o desemprego não tem de ser encarado como negativo e pode ser «uma oportunidade para mudar de vida».
 
Um primeiro-ministro cujo governo vomita para cima dos jovens que estão no desemprego: “temos de sair da zona de conforto e ir para além das nossas fronteiras”.
 
Um primeiro-ministro que leva ao colo o seu amigo Miguel Relvas, contrariando a população farta dos análogos Oliveiras e Costas & Dias Loureiros S.A.
 
Um primeiro-ministro que anuncia durante o 80º aniversário da fábrica de chocolates Imperial, em Vila do Conde, que vamos demorar 15 a 20 anos a reduzir a dívida, apontando o final destes tempos difíceis para as calendas gregas.
 
Um primeiro-ministro que já não entra pela porta da frente de nenhuma empresa ou instituição deste País, com medo da população que o espera nesses locais para se manifestar.
 
Um primeiro-ministro que é corajoso a empobrecer a maioria dos portugueses, mas cobarde quando enfrenta os grandes interesses e na rua a indignação da população.
 
 Um primeiro-ministro que pretende transferir rendimentos do trabalho para o capital, pasme-se ou talvez não, contra a opinião maioritária dos supostos beneficiados.
 
Um primeiro-ministro que sem decoro anuncia na proposta de orçamento do estado para 2013, um acréscimo de dificuldades intoleráveis para a maioria das famílias portuguesas.
 
Um primeiro-ministro e seus lacaios que menosprezam a inteligência dos portugueses, ao considerarem que a indignação generalizada, com o anúncio da proposta de orçamento do estado para 2013, tem apenas a ver com a forma e o momento da comunicação, e não com o conteúdo das medidas anunciadas.
 
Um primeiro-ministro que …
 
A política ruinosa de Passos Coelho e seus jagunços, à revelia de tudo o que prometeram durante a campanha eleitoral de 2011, só podia ter tido, para já, esta resposta dos portugueses:
 
O “Povo Unido” saiu à rua em mais de 40 cidades, juntando só em Lisboa cerca de meio milhão de pessoas, coisa só vista no 1.º de maio de 1974.
 

domingo, 13 de maio de 2012

Passos Coelho e o desemprego


Em Maio de 2011, cerca de um mês antes das últimas eleições legislativas, Passos Coelho criticando o governo de José Sócrates, considerou que a taxa de desemprego de 12,4 por cento divulgada nessa altura correspondia a um «sinal evidente» da crise que o país atravessava.

«É um valor extremamente elevado, que representa o sinal mais evidente da crise profunda que estamos a atravessar», afirmou durante o Fórum da TSF.
Posteriormente, de visita à Santa Casa da Misericórdia em Faro, voltou a comentar os números: «É realmente uma tragédia o estado a que o nosso estado social tem chegado. É um valor muito grave, que nós sabemos, ainda para mais, que tem tendência para se acentuar

«É importante não repetir os mesmos erros do passado, que conduziram a uma recessão económica, precisamos de políticas activas de emprego. (aqui)

Passado um ano, o primeiro-ministro Passos Coelho depois de ter entregue em Bruxelas, às escondidas do Parlamento mais um PEC, agora designado por Documento de Estratégia Orçamental, relativamente as previsões para o desemprego:

Para 2013, o Governo aponta para uma taxa de desemprego de 14,1%, duas décimas acima da troika, para 2014 e 2015, a taxa deverá atingir valores de 13,2 e 12,7%, respectivamente, o que corresponde a revisões em alta de uma e três décimas. (aqui)

Passos Coelho enquanto estava na oposição classificava o desemprego como uma situação de tragédia.

Passos Coelho, primeiro ministro, vem durante esta semana gozar com os desempregados, considerando que o desemprego representa uma oportunidade para mudar de vida. (aqui)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Desemprego Simplex

O trabalho descartável é o regresso às praças de jorna, é prelúdio da proletarização e da revolta.

O Governo Coelho/Portas/Gaspar tem cantado hossanas deslumbradas com a prova de fé que demonstra com alegria em ir além da troika. Esta religião, que como as outras não tem prova científica que supere a devoção dos crentes, assenta no postulado de que mais austeridade e mais rápida permite sarar a praga dos défices orçamental e externo, domar a hidra da dívida e fazer renascer uma economia competitiva.

Os resultados começam a ser sentidos. Recessão superior à prevista no memorando, balança externa corrigida pela queda do consumo, aumento das falências e uma onda de tragédia social com a perda de apoios sociais residuais e o último ato que é a entrega da casa à banca. A dúvida legítima é se os aprendizes de feiticeiro não estão a anos-luz de economistas sensatos como Krugman, Stiglitz ou Sen e mais próximos da medieva tradição de sangrar o doente e dar-lhe sanguessugas, culpando da gangrena fatal a falta de fé.

Mas a pedra-de-toque da dignidade humana é o direito ao trabalho e a sua centralidade nas políticas públicas. O Governo conseguiu já, com o desemprego de 14% e mais de um milhão de trabalhadores fora do mercado, superar o Memorando da troika que previa que o pico do desemprego antes da recuperação não superasse os 13,4%.

Mas o que surpreende é a prioridade radical dada, não ao estímulo à criação de emprego, mas sim à fragilização das relações laborais e ao despedimento barato e simplex. A lengalenga da rigidez das relações laborais foi desmentida pela AutoEuropa que sempre conseguiu flexibilidade e competitividade. Descobrimos agora que em Espanha o novo Governo de direita quer baixar as indemnizações de 45 para 30 dias por ano de trabalho perante a fúria geral. São pouco competitivos face ao nosso Álvaro, que fala de despedimentos baratos com 8 a 12 dias de indemnização.

É indispensável a adaptação ao mundo em mudança, em concertação, valorizando o trabalho que deve ser mais qualificado apostando na formação permanente.

O trabalho descartável é o regresso às praças de jorna, é o prelúdio da proletarização e da revolta.


sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Carta aberta ao Primeiro Ministro Passos Coelho


Exmo Senhor Primeiro Ministro

Começo por me apresentar, uma vez que estou certa que nunca ouviu falar de mim. Chamo-me Myriam. Myriam Zaluar é o meu nome “de guerra”. Basilio é o apelido pelo qual me conhecem os meus amigos mais antigos e também os que, não sendo amigos, se lembram de mim em anos mais recuados.

Nasci em França, porque o meu pai teve de deixar o seu país aos 20 e poucos anos. Fê-lo porque se recusou a combater numa guerra contra a qual se erguia. Fê-lo porque se recusou a continuar num país onde não havia liberdade de dizer, de fazer, de pensar, de crescer. Estou feliz por o meu pai ter emigrado, porque se não o tivesse feito, eu não estaria aqui. Nasci em França, porque a minha mãe teve de deixar o seu país aos 19 anos. Fê-lo porque não tinha hipóteses de estudar e desenvolver o seu potencial no país onde nasceu. Foi para França estudar e trabalhar e estou feliz por tê-lo feito, pois se assim não fosse eu não estaria aqui. Estou feliz por os meus pais terem emigrado, caso contrário nunca se teriam conhecido e eu não estaria aqui. Não tenho porém a ingenuidade de pensar que foi fácil para eles sair do país onde nasceram. Durante anos o meu pai não pôde entrar no seu país, pois se o fizesse seria preso. A minha mãe não pôde despedir-se de pessoas que amava porque viveu sempre longe delas. Mais tarde, o 25 de Abril abriu as portas ao regresso do meu pai e viemos todos para o país que era o dele e que passou a ser o nosso. Viemos para viver, sonhar e crescer.

Cresci. Na escola, distingui-me dos demais. Fui rebelde e nem sempre uma menina exemplar mas entrei na faculdade com 17 anos e com a melhor média daquele ano: 17,6. Naquela altura, só havia três cursos em Portugal onde era mais dificil entrar do que no meu. Não quero com isto dizer que era uma super-estudante, longe disso. Baldei-me a algumas aulas, deixei cadeiras para trás, saí, curti, namorei, vivi intensamente, mas mesmo assim licenciei-me com 23 anos. Durante a licenciatura dei explicações, fiz traduções, escrevi textos para rádio, coleccionei estágios, desperdicei algumas oportunidades, aproveitei outras, aprendi muito, esqueci-me de muito do que tinha aprendido.

Cresci. Conquistei o meu primeiro emprego sozinha. Trabalhei. Ganhei a vida. Despedi-me. Conquistei outro emprego, mais uma vez sem ajudas. Trabalhei mais. Saí de casa dos meus pais. Paguei o meu primeiro carro, a minha primeira viagem, a minha primeira renda. Fiquei efectiva. Tornei-me personna non grata no meu local de trabalho. “És provavelmente aquela que melhor escreve e que mais produz aqui dentro.” – disseram-me – “Mas tenho de te mandar embora porque te ris demasiado alto na redacção”. Fiquei.

Aos 27 anos conheci a prateleira. Tive o meu primeiro filho. Aos 28 anos conheci o desemprego. “Não há-de ser nada, pensei. Sou jovem, tenho um bom curriculo, arranjarei trabalho num instante”. Não arranjei. Aos 29 anos conheci a precariedade. Desde então nunca deixei de trabalhar mas nunca mais conheci outra coisa que não fosse a precariedade. Aos 37 anos, idade com que o senhor se licenciou, tinha eu dois filhos, 15 anos de licenciatura, 15 de carteira profissional de jornalista e carreira ‘congelada’. Tinha também 18 anos de experiência profissional como jornalista, tradutora e professora, vários cursos, um CAP caducado, domínio total de três línguas, duas das quais como “nativa”. Tinha como ordenado ‘fixo’ 485 euros x 7 meses por ano. Tinha iniciado um mestrado que tive depois de suspender pois foi preciso escolher entre trabalhar para pagar as contas ou para completar o curso. O meu dia, senhor primeiro ministro, só tinha 24 horas…

Cresci mais. Aos 38 anos conheci o mobbying. Conheci as insónias noites a fio. Conheci o medo do amanhã. Conheci, pela vigésima vez, a passagem de bestial a besta. Conheci o desespero. Conheci – felizmente! – também outras pessoas que partilhavam comigo a revolta. Percebi que não estava só. Percebi que a culpa não era minha. Cresci. Conheci-me melhor. Percebi que tinha valor.

Senhor primeiro-ministro, vou poupá-lo a mais pormenores sobre a minha vida. Tenho a dizer-lhe o seguinte: faço hoje 42 anos. Sou doutoranda e investigadora da Universidade do Minho. Os meus pais, que deviam estar a reformar-se, depois de uma vida dedicada à investigação, ao ensino, ao crescimento deste país e das suas filhas e netos, os meus pais, que deviam estar a comprar uma casinha na praia para conhecerem algum descanso e descontracção, continuam a trabalhar e estão a assegurar aos meus filhos aquilo que eu não posso. Material escolar. Roupa. Sapatos. Dinheiro de bolso. Lazeres. Actividades extra-escolares. Quanto a mim, tenho actualmente como ordenado fixo 405 euros X 7 meses por ano. Sim, leu bem, senhor primeiro-ministro. A universidade na qual lecciono há 16 anos conseguiu mais uma vez reduzir-me o ordenado. Todo o trabalho que arranjo é extra e a recibos verdes. Não sou independente, senhor primeiro ministro. Sempre que tenho extras tenho de contar com apoios familiares para que os meus filhos não fiquem sozinhos em casa. Tenho uma dívida de mais de cinco anos à Segurança Social que, por sua vez, deveria ter fornecido um dossier ao Tribunal de Família e Menores há mais de três a fim que os meus filhos possam receber a pensão de alimentos a que têm direito pois sou mãe solteira. Até hoje, não o fez.

Tenho a dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: nunca fui administradora de coisa nenhuma e o salário mais elevado que auferi até hoje não chegava aos mil euros. Isto foi ainda no tempo dos escudos, na altura em que eu enchia o depósito do meu renault clio com cinco contos e ia jantar fora e acampar todos os fins-de-semana. Talvez isso fosse viver acima das minhas possibilidades. Talvez as duas viagens que fiz a Cabo-Verde e ao Brasil e que paguei com o dinheiro que ganhei com o meu trabalho tivessem sido luxos. Talvez o carro de 12 anos que conduzo e que me custou 2 mil euros a pronto pagamento seja um excesso, mas sabe, senhor primeiro-ministro, por mais que faça e refaça as contas, e por mais que a gasolina teime em aumentar, continua a sair-me mais em conta andar neste carro do que de transportes públicos. Talvez a casa que comprei e que devo ao banco tenha sido uma inconsciência mas na altura saía mais barato do que arrendar uma, sabe, senhor primeiro-ministro. Mesmo assim nunca me passou pela cabeça emigrar…

Mas hoje, senhor primeiro-ministro, hoje passa. Hoje faço 42 anos e tenho a dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: Tenho mais habilitações literárias que o senhor. Tenho mais experiência profissional que o senhor. Escrevo e falo português melhor do que o senhor. Falo inglês melhor que o senhor. Francês então nem se fale. Não falo alemão mas duvido que o senhor fale e também não vejo, sinceramente, a utilidade de saber tal língua. Em compensação falo castelhano melhor do que o senhor. Mas como o senhor é o primeiro-ministro e dá tão bons conselhos aos seus governados, quero pedir-lhe um conselho, apesar de não ter votado em si. Agora que penso emigrar, que me aconselha a fazer em relação aos meus dois filhos, que nasceram em Portugal e têm cá todas as suas referências? Devo arrancá-los do seu país, separá-los da família, dos amigos, de tudo aquilo que conhecem e amam? E, já agora, que lhes devo dizer? Que devo responder ao meu filho de 14 anos quando me pergunta que caminho seguir nos estudos? Que vale a pena seguir os seus interesses e aptidões, como os meus pais me disseram a mim? Ou que mais vale enveredar já por outra via (já agora diga-me qual, senhor primeiro-ministro) para que não se torne também ele um excedentário no seu próprio país? Ou, ainda, que venha comigo para Angola ou para o Brasil por que ali será com certeza muito mais valorizado e feliz do que no seu país, um país que deveria dar-lhe as melhores condições para crescer pois ele é um dos seus melhores – e cada vez mais raros – valores: um ser humano em formação.

Bom, esta carta que, estou praticamente certa, o senhor não irá ler já vai longa. Quero apenas dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: aos 42 anos já dei muito mais a este país do que o senhor. Já trabalhei mais, esforcei-me mais, lutei mais e não tenho qualquer dúvida de que sofri muito mais. Ganhei, claro, infinitamente menos. Para ser mais exacta o meu IRS do ano passado foi de 4 mil euros. Sim, leu bem, senhor primeiro-ministro. No ano passado ganhei 4 mil euros. Deve ser das minhas baixas qualificações. Da minha preguiça. Da minha incapacidade. Do meu excedentarismo. Portanto, é o seguinte, senhor primeiro-ministro: emigre você, senhor primeiro-ministro. E leve consigo os seus ministros. O da mota. O da fala lenta. O que veio do estrangeiro. E o resto da maralha. Leve-os, senhor primeiro-ministro, para longe. Olhe, leve-os para o Deserto do Sahara. Pode ser que os outros dois aprendam alguma coisa sobre acordos de pesca.

Com o mais elevado desprezo e desconsideração, desejo-lhe, ainda assim, feliz natal OU feliz ano novo à sua escolha, senhor primeiro-ministro e como eu sou aqui sem dúvida o elo mais fraco, adeus

Myriam Zaluar, 19/12/2011

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