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terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Política à Portuguesa



Desde o golpe de estado do 25 de Abril que este nosso jardim à beira mar colapsado tem sido governado (?), não pelo PS, tão pouco pelo PSD/CDS, mas sim pelo Centrão. A matéria-prima é fornecida pelas mesmas elites, amigos que frequentam as mesmas escolas e se fazem homenzinhos no interior dos aparelhos dos partidos, são os famosos boys. Neste momento, com o inestimável contributo do PCP, estão lá os amigos do PSD/CDS.

Escreve Ricardo Costa no Expresso de 14 de Janeiro “Há vários anos que o PS e o PSD são partidos estruturalmente iguais. Têm os mesmos tiques, organizações parecidas, clientelas que se misturam e um sentido de apropriação do estado que é rigorosamente igual, da mais pequena freguesia à mais disputada cadeira empresarial.”… Não podia estar mais de acordo.

Se o governo da nação é coutada exclusiva do Centrão, nas autarquias o PCP, através da capa mistificadora CDU, vai ainda arrebanhando uns concelhos. E também ele e os seus boys - que também os tem - se deixam frequentemente vencer pela tentação da apropriação do estado, em favor do partido, dos seus negócios e interesses pessoais.

Com a morte das ideologias, comunismo, capitalismo, socialismo e o que restava da democracia foram, no virar do século, definitivamente enterrados. Abriu-se então uma janela de oportunidades para toda uma classe de chicos-espertos que canibalizaram os partidos políticos, todos e sem excepção.

A nível nacional toda esta gente não passa de peões, marionetas dos grandes grupos económicos. A nível local, pouco mais são que anónimas partículas de pó, pousadas sobre o tabuleiro onde se desenrola o Grande Jogo.

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&hl=pt-PT&v=pGEtvl4-238

Comentário de anónimo aqui

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Otelo: "O regime está a criar condições para ser abatido"

O operacional do 25 de Abril diz que "se o FMI atingir os militares pode criar condições para uma revolta"
 

Da esquerda para a direita: Vasco Gonçalves, Otelo Saraiva de Carvalho e Rosa Coutinho

José Mário Branco - Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades

Eduardo Lourenço, que assina o prefácio do livro "O dia inicial", escreve que o 25 de Abril foi "o dia de pura glória de Otelo e não terá outro maior". Talvez por isso Otelo Saraiva de Carvalho insista na ideia que, no dia 26, a sua missão estava cumprida e o seu desejo era voltar a dar aulas na Academia Militar. Não foi assim e, 37 anos depois, Otelo defende, com a mesma convicção de outros tempos, a democracia directa e justifica os excessos do PREC. "Exorbitei muitas vezes as minhas funções, eu reconheço isso, mas a revolução era para se fazer ou não?", diz a certa altura desta conversa o operacional de Abril, que, perante a insistência sobre os métodos utilizados durante o chamado período revolucionário em curso, remata com um "tinha de ser assim, pá". Foi nessa altura que mudámos de assunto para falar do país, do FMI, do governo ou das próximas eleições. Otelo resume o que pensa e sente numa frase: "O desgosto é grande."

 
No livro "O tempo inicial" relata o fim da acção que desenvolve no Posto de Comando e sublinha que ficou sozinho. Às 13 horas do dia 25 de Abril, quando toda a gente festejava nas ruas, o Otelo era um homem só?

Aquela gente toda que estava no Posto de Comando saiu para ir ver a alegria que estava nas ruas e eu dei comigo sozinho. Arrumei as coisas - as granadas e as pistolas que tinham para ali ficado - e fui-me embora. Estava sozinho. O Sanches Osório e o Lopes Pires disseram, mais tarde, que estiveram lá até ao dia 27, mas quando eu saí não estava lá ninguém. Apaguei a luz, fechei a porta, meti-me no carro e fui para casa. A minha missão estava cumprida.

E foi para casa?

Fui. Eu despedi-me da minha mulher no dia 23 e fui dormir à Pontinha nessa noite por uma questão de precaução. No dia 24 fui para o Posto de Comando. Na noite de 23 a minha mulher não sabia ainda o que eu era no movimento e expliquei- -lhe: "Vou fazer uma revolução. Aqueles papéis que eu andava a escrever estão relacionados com as missões que estão distribuídas e eu vou coordenar. Eu vou amanhã iniciar a revolução."

E qual foi a reacção da sua mulher?

Ela perguntou o que é que podia acontecer se nós fôssemos derrotados e eu disse-lhe: "Não, olha, na sexta-feira estou cá para almoçar contigo." Quando saí do Posto de Comando fui para casa e disse-lhe: "Vamos almoçar."

Estamos numa situação de crise grave. Não só financeira, como económica e política. Há o risco de haver uma nova ruptura como no 25 de Abril de 1974?

Estão a ser criadas condições para isso. Curiosamente o poder capitalista acaba sempre por se encaminhar para o suicídio. Estes regimes capitalistas, regimes da burguesia, têm tendência para isso. Vão sempre encontrando novas formas de se manter no poder, mas a verdade é que se vão suicidando.

Encontra algum paralelo entre o fim da ditadura e os tempos que estamos a viver?

Talvez pela teimosia na continuidade de uma política que já não é aceite. O aumento do desemprego e do custo de vida, que leva a uma cada vez maior dificuldade do povo, pode levar também a uma eclosão social que, sendo do tipo de uma insurreição popular sem nenhuma organização, sem nenhum comando, pode levar a um desastre. Por outro lado, se houver algum comando sobre essa insurreição levada a cabo ou por partidos ou por Forças Armadas pode vir a transformar-se numa nova ditadura. Correm-se sempre riscos, mas é o próprio regime que vai criando condições para ser abatido. Foi o que aconteceu com o fascismo em Portugal, que demorou muito tempo, mas acabou por acontecer.

Imagina hoje as Forças Armadas a tomarem alguma posição contra o regime?

Não, as circunstâncias são diferentes. Em 1974 as Forças Armadas estavam numa guerra colonial e era obrigatório o serviço militar. Com excepção do quadro permanente, os outros eram compelidos à prestação do serviço militar e quando se dá a oportunidade de alterar o sistema essa massa enorme tem tendência a apoiar uma acção deste género. Actualmente as Forças Armadas têm corpos de voluntários - houve uma redução enormíssima do número de efectivos - que ganham ajudas de custo e estão bem. Só se poderá criar condições no âmbito militar para uma revolta se o governo, a certa altura em desespero, começar a reduzir as vantagens económicas. Começar a reduzir os salários, as pensões ou a retirar regalias como o 13.o mês ou o 14.o mês.

O que pode acontecer com as medidas de austeridade que estamos a negociar com as instituições europeias?

O que vai acontecer agora, com a intervenção do FMI, se atingir os militares pode criar condições para uma revolta.

Se Marcello Caetano tem resolvido o problema da guerra colonial, o 25 de Abril não teria existido?

Se tivesse encontrado uma solução política para a guerra colonial acho que sim, mas já não ia a tempo. O grande culpado da guerra colonial foi o Salazar. O Marcello Caetano ficou com o menino nos braços e não teve força para encontrar uma solução política.

Vasco Lourenço diz que, se fosse ele a comandar, não teria sido o general Spínola a ir receber o poder de Marcello Caetano. Podia ter sido diferente?

Eu queria que fosse o Salgueiro Maia, mas o Marcello Caetano tinha aquela perspectiva de entregar o poder a um general e o livro "Portugal e o Futuro" tinha o nosso apoio. Há até um encontro, na rua, em que o general ia no carro e parou num semáforo vermelho, baixou o vidro e disse-me: "Otelo, o Marcello não quer que eu publique o livro." E eu disse: "O meu general tem de publicar." E então ele diz-me que o Marcello tinha dito que se demitia. Eu respondi-lhe: "Mas é isso que a gente quer e nós apoiamos." Portanto já havia um conjunto de circunstâncias que fizeram com que eu, com a concordância do Vítor Alves e do Charais [Franco Charais], tenha dito ao Spínola que estava mandatado para receber o poder.

Preferia que tivesse sido o Salgueiro Maia?

Podia ter sido entregue a um capitão, mas quem é que geria a política? A perspectiva de serem os generais a formarem uma Junta de Salvação Nacional foi uma proposta do Vítor Alves, que era um homem muito realista, e quando o Vasco Lourenço e outros voluntaristas diziam nós vamos ganhar o poder, eu dizia que não me sentia politicamente preparado para agarrar nas responsabilidades políticas do país. E para que a revolução fosse reconhecida em todo o mundo tínhamos de ter generais, e com o maior prestígio possível. O novo poder em Portugal foi reconhecido imediatamente em todo o mundo, mas se tivéssemos sido nós a tomar conta da situação o terceiro mundo era capaz de aplaudir, mas o mundo ocidental não.

Qual foi a participação de Spínola no 25 de Abril?

O Spínola colaborou à distância. O grupo político liderado pelo Vítor Alves entregava-me as bases programáticas que o Melo Antunes tinha deixado em 23 de Março e iam limando aquilo que poderia ser mais agressivo. E eu levava isso a um major spínolista, que todos os dias frequentava a casa do general, e ele dizia quais eram as suas discordâncias em relação a algumas frases. As frases ou os vocábulos tipo "fascista" ou "democracia" o Spínola cortava para não tornar aquilo um texto muito político. Depois disso eu voltava a entregar ao Vítor Alves. O resultado é que no 25 de Abril o programa político do MFA, alterado em algumas coisas pelo próprio Spínola, estava preparado para ser difundido. O Spínola estava hipotecado a esse programa.

O Otelo chegou a ser convidado para primeiro-ministro?

Fui convidado para tudo, mas recusei sempre.

Como é que foi gerindo o poder?

Com dificuldade. Logo a seguir ao 25 de Abril eu remeti-me ao meu cargo de professor na Academia Militar. E quando fui esperar o Vasco Lourenço, que regressou dos Açores no dia 28, eu disse logo que a minha missão estava cumprida. O Vasco Lourenço disse-me: "Tu és maluco, agora é que isto vai começar." Mas eu achei que a minha missão estava cumprida e fui mesmo para a Academia Militar.

Mas depois mudou de ideias...

Uns dias depois fui chamado para me apresentar na Cova da Moura e o Charais veio ter comigo e disse-me: "Nós estamos a preparar um decreto-lei que vai ser lançado dentro de dias, que é o Copcon [Comando Operacional do Continente] para acções de vigilância e de defesa da revolução e vais ser tu o comandante-adjunto e o general Costa Gomes assume o comando. A malta quer que sejas tu." E eu disse: "Eh pá, mas que chatice, mas para quê isso?" Depois fui chamado ao Spínola - ao gabinete do Presidente da República provisório -, que me disse que eu iria ser o chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas.

E não aceitou.

E eu disse: "Não vou de certeza, não quero promoção nenhuma, não quero nada a cheirar a regalia." E, nessa altura, o Monge [Manuel Monge] propõe-me para a Região Militar de Lisboa e eu muito a contragosto lá aceitei. Mas também disse: "Vocês não esperem que eu vá ser um general tipo altos estudos militares. Vou ser um general revolucionário e depois não fiquem escamados comigo quando eu começar a tomar atitudes que transcendem os valores do regulamento de disciplina militar."

A verdade é que houve muita gente que não gostou que o Otelo tivesse ultrapassado os seus poderes.

Essa exorbitância decorreu naturalmente pelo facto de durante o PREC [Período Revolucionário em Curso] ter havido uma desresponsabilização total de todos os sectores da actividade pública. Os ministros existiam não sei para quê. Vinha gente ter comigo ao Copcon a dizer que era preciso resolver o problema na fábrica, porque o administrador tinha fugido para o Brasil com o dinheiro, e eu dizia que isso era com o Ministério do Trabalho, mas eles de lá diziam que o Copcon é que resolvia. As ocupações do Alentejo começaram por uma decisão minha. Os trabalhadores vieram ter comigo a dizer que estavam à rasca, porque se ouvia falar muito da reforma agrária, mas a verdade é que os latifundiários todos os dias estavam a levar o gado e a deixar as terras abandonadas.

Disse-lhes que a solução era ocupar as terras...

Disse-lhes para ocuparem as terras e dei ordens à GNR que os deixasse à vontade para começarem a trabalhar. Em pouco mais de uma semana um milhão e duzentos mil hectares de terras foram ocupados.

Que reacção houve a essa decisão?

O Vítor Alves disse-me: "És maluco, mandaste ocupar as terras." Exorbitei muitas vezes as minhas funções, eu reconheço isso, mas a revolução era para se fazer ou não?

Tomava essas decisões sozinho ou ouvia outras pessoas?

Nada, porque os conselhos eram sempre do género "tem calma, isso resolve-se daqui a três meses". Considerei que havia a legitimidade revolucionária.

Hoje reconhece que cometeu muitos excessos?

Reconheço, mas faria tudo outra vez. Não me arrependo daquilo que fiz. O único excesso que podia ter evitado foram os mandados de captura em branco, mas tinha uma diversidade tão grande de funções que não tinha a possibilidade...

... de fazer tudo ao mesmo tempo?

Eu era a única entidade no país que podia assinar mandados de captura. Ora eu era comandante da Região Militar de Lisboa, era comandante do Copcon. Eu saía do Copcon às quatro da manhã e no outro dia já lá estava às nove. E se fosse preciso um mandado de captura a meio da noite? Eu pensei que era preciso racionalizar e deixava dez mandados de captura por preencher. Foi uma decisão do Costa Gomes. É uma ordem que me é dada e o Costa Gomes invoca a legitimidade revolucionária. A Constituição tinha sido abolida. Uma revolução ou se faz a sério ou não e não podemos aplicar num processo revolucionário os ditames de uma democracia. Tinha de ser assim, pá.

Ficou surpreendido com o resultado das primeiras eleições, a seguir ao 25 de Abril, que deram a vitória ao PS?

As eleições foram uma aposta nossa. No prazo de um ano o objectivo era realizar eleições e até fiquei feliz, porque vi que o PCP, que se arvorava em dono da verdade e líder das massas, ficou em terceiro lugar.

Mário Soares diz que numa viagem a Lusaka em que os dois falaram pela primeira vez o Otelo se identificou como um socialista tipo Olof Palme...

Não me lembro disso, mas é possível que tenha reproduzido essa frase, que eu tinha ouvido do Vasco Gonçalves.

Do Vasco Gonçalves?

O Vasco Gonçalves tinha-me dito que seria bom, dentro de dois anos, ter uma democracia do tipo sueco.

E mais tarde conheceu Olof Palme.

Tive com ele na Suécia e gostei muito dele. Expus-lhe a minha perspectiva sobre a democracia directa e ele disse-me que isso era utópico e que não era possível implementar esse modelo no mundo ocidental. Não consegui convencê-lo.

Nem ele a si?

Nem ele a mim, mas é possível que eu tenha dito isso ao Mário Soares e na altura era essa a minha perspectiva. Eu tinha aderido facilmente ao programa do MFA, mas o PREC abriu o horizonte para outra possibilidade, de criar um modelo novo de regime, que era a democracia directa.

Um modelo com que nenhum partido concordava. Quais foram os líderes políticos que conheceu melhor?

O Sá Carneiro, conheci-o muito pouco. O Freitas do Amaral, nunca tinha falado com ele até há três anos, no lançamento de um livro, em que ele veio ter comigo e eu gostei de o conhecer, mas com quem eu tive mais contactos foi com o PS.

E com Cunhal?

Tivemos um contencioso sério por causa das presidenciais de 76. Durante o PREC ele promoveu um jantar em casa do Silva Graça, que foi comer para a cozinha com a mulher e com as filhas e deixou-nos a sós.

Cunhal não estava a gostar do rumo dos acontecimentos e convocou-o para o levar para o lado do PCP?

Tivemos um bate-papo violento. Ele começou a fazer críticas ao MFA e a dizer que o MFA devia fazer isto e aquilo. E eu disse-lhe: "Ó doutor, eu não lhe vou dizer o que é que deve fazer no Partido Comunista. Eu considero que o PC tem tido acções muito más, por vezes, que são prejudiciais à revolução e se quiser eu faço aqui uma lista do que é que o seu partido tem feito, mas não lhe admito que me dê orientações, porque o MFA não tem nada a ver consigo, nem com nenhum partido, e se eu precisar de orientações peço ao Melo Antunes..."

Nunca teve boas relações com Álvaro Cunhal?

Não. Foi o meu principal inimigo

Já com Mário Soares foi diferente.

Uma relação cordial. O Mário Soares e o Almeida Santos convidaram-me várias vezes para ser cabeça-de-lista do PS nas eleições para a Assembleia da República. E uma vez num jantar no Hotel Altis havia uma mesa com a malta toda da Internacional Socialista. O Soares, o Willy Brandt, o Shimon Peres... e a certa altura fui chamado para a mesa. O Soares levanta-se e logo a seguir levanta-se aquela malta toda da Internacional Socialista e eu pensei ''eh pá o que é isto?'' Apresenta-me o Willy Brandt, que era o presidente da Internacional Socialista, e diz-lhe: "O Otelo, o nosso herói, que nós já temos tentado trazer para o partido, mas ele não gosta de nós." E eu disse-lhe: "Os melhores amigos que eu tenho são no campo político do PS, mas eu não gosto de partidos."

Candidatou-se à presidência da República sem o apoio de nenhum partido. Não queria o poder, mas candidatou-se a Presidente...

Sabia que tinha poucas hipóteses de vencer com um candidato como o Eanes, que eu não tinha dúvida de que iria ganhar à primeira volta. Concorri para saber o que é que as minhas ideias valiam perante o povo. A ideia era uma democracia participativa, com as pessoas a participarem activamente e diariamente e não só de quatro em quatro anos.

Teve o apoio, entre outros, de Ferro Rodrigues, que mais tarde foi líder do PS.

Foi em casa dele que lancei os GDUP. Eu tinha vindo de Cuba e tinha visto essa ideia de poder popular. Eram os grupos dinamizadores de unidade popular, que surgiram como a base de apoio da candidatura, que não tinha nenhum partido a apoiá--la. Foi um êxito notável e a minha satisfação é verificar que hoje há no país gente que pertenceu aos GDUP que são presidentes de câmara. Ficou aí uma semente, que não sei se irá dar alguma erva.

Continua a culpar o PCP por ter sido preso preventivamente durante cinco anos, na sequência do caso FP-25?

Hoje não tenho dúvida nenhuma. Foi o secretariado do PCP que, quando em 84 anunciei que ia ser cabeça-de-lista da FUP [Força de Unidade Popular] por Lisboa ao parlamento, resolveu meter-me na prisão para impedir outro desastre eleitoral, como em 1976. E tenho dito isto sem que exista da parte da direcção do PCP alguma palavra em contrário.

Disse que se soubesse como o país ia ficar não tinha feito o 25 de Abril. Arrependeu-se?

Eu reportei-me à situação em que vivíamos antes do 25 de Abril para dizer que os jovens de hoje, que são obrigados a emigrar, estavam numa situação idêntica à nossa com uma guerra injusta. E o que digo é que se não tivesse havido o movimento dos capitães, eu isolado possivelmente teria sido obrigado a sair do país e não teria feito a revolução.

Vasco Lourenço diz que essa declaração é incompreensível.

Por causa dessa frase, que foi explorada como um sound byte, tenho recebido muitas mensagens a dizer que de facto a classe política pôs o país de rastos. A frase não foi bem entendida. O que eu digo é que as pessoas isoladas não conseguem um combate capaz de provocar alterações. Quando se juntam esforços então, sim, vale a pena.

Valeu a pena ter feito o 25 de Abril?

Sim, bolas. O derrube da ditadura e a possibilidade de sermos livres vale sempre a pena. É irrefutável.


25 de Abril de 1974


Zeca Afonso - Grandola Vila Morena

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Guerra colonial: a emboscada inédita

Filmadas na Guiné, em 1969, por três jornalistas franceses, as imagens só agora foram reveladas. (Vídeo SIC no final do texto)

A manhã mal tinha nascido quando se deu o ataque. As explosões de morteiro atingiram os primeiros homens da coluna com tanta violência que em milésimos de segundos lhes arrancaram membros e todo o vestuário.

Durante cerca de 15 minutos os militares portugueses combateram um inimigo sempre invisível, escondido no meio do mato. Quando o som dos disparos das G3 portuguesas e das metralhadoras chinesas usadas pelos guerrilheiros do PAIGC finalmente abrandou, foi substituído por outro não menos angustiante. Os gritos de agonia de um dos homens atingidos de morte.

"Ele sentiu a morte e de que maneira. Ainda esteve mais de uma hora vivo, sem uma perna e um braço. Pediu para o matarmos, mas quem é que o matava... era muito difícil fazer isso mas sabíamos que ele estava a sofrer e bem".

Leonel Martins também foi atingido pelas armas dos guerrilheiros do PAIGC, mas teve mais sorte. Sofreu ferimentos graves numa perna, nos rins e no peito, mas sobreviveu.
Um maço de tabaco numa hora

Conta que acendeu cigarro atrás de cigarro enquanto esperava pelo helicóptero de socorro que andou perdido a sobrevoar o mato e levou quase uma hora e meia para encontrar o local.

"São daqueles momentos que nunca mais passam. E eu estava passado da cabeça, pronto. Fumei um maço de tabaco inteiro numa hora e mesmo depois, no helicóptero, já a soro, ainda pedi um cigarro ao piloto".

Esta emboscada aconteceu a 18 de outubro de 1969 na região de Bula, a cerca de 40 quilómetros de Bissau e tudo foi filmado pela câmara de três jornalistas franceses que conseguiram autorização de Spínola e do Governo de Lisboa para acompanhar o teatro de operações. Para os registos oficiais, representou apenas mais um episódio da guerra da Guiné, mais dois homens na lista de baixas, outros dois para a contabilidade dos feridos.

O filme, que poucos conhecem, é um dos registos mais dramáticos da guerra colonial que começou em Angola, a 4 de fevereiro de 1961. E foi visto no programa "Grande Reportagem" da SIC, que foi para exibido domingo à noite.

aeiou.expresso.pt




quarta-feira, 29 de setembro de 2010

A República vai fazer 100 anos


terça-feira, 22 de junho de 2010

Os Vencidos da Vida

“Vencidos da Vida é o nome porque ficou conhecido um grupo informal formado por algumas das personalidades intelectuais de maior relevo da vida cultural portuguesa das últimas três décadas do século XIX, com fortes ligações à chamada Geração de 70. O nome do grupo, ao que parece, foi adoptado por sugestão de Joaquim Pedro de Oliveira Martins. A denominação decorre claramente da renúncia dos membros do grupo às suas aspirações de juventude….

….O grupo incluía, entre outros, José Duarte Ramalho Ortigão, Joaquim Pedro de Oliveira Martins, António Cândido Ribeiro da Costa, Guerra Junqueiro, Luís de Soveral, Francisco Manuel de Melo Breyner (3.° conde de Ficalho), Carlos de Lima Mayer, Carlos Lobo de Ávila e António Maria Vasco de Mello Silva César e Menezes (9.º conde de Sabugosa). Eça de Queirós integrou o grupo a partir de 1889.

Apesar de Vencidos da Vida, a actividade do grupo fez renascer e crescer entre os seus membros uma nova esperança, pois tinham-se tornado um círculo influente junto do príncipe herdeiro e, após a morte de D. Luís I, em 1889, passaram a influenciar o novo rei, D. Carlos I. Nesse contexto, Eça de Queiroz escreveu na Revista de Portugal logo que o príncipe subiu ao trono: O Rei surge como a única força que no País ainda vive e opera.

Chegaram a julgar que se abria um novo ciclo político, com os Vencidos da Vida a acreditarem que, por intermédio de um acrescido papel do rei e de uma nova política externa liberta da velha aliança inglesa, se conseguiria debelar a crise provocada pelo regime oligárquico da Carta. Contudo, o assassínio de D. Carlos e do príncipe Luís Filipe, acabaram por deitar por terra as suas últimas esperanças…”

In Wikipédia



"Para um homem, o ser vencido ou derrotado na vida depende, não da realidade aparente a que chegou — mas do ideal íntimo a que aspirava.
Se um sujeito largou pela existência fora com o ideal supremo de ser oficial de cabeleireiro, este benemérito é um vencedor, um grande vencedor, desde que consegue ter nas mãos uma gaforina e a tesoura para a tosquiar, embora atravesse pelo Chiado cabisbaixo e de botas cambadas.

Eça de Queiroz, in O Tempo, 1889

terça-feira, 27 de abril de 2010

Os dias seguintes ao 25 de Abril

Reportagem dos dias seguintes ao 25 de Abril, filmada cores pelos média estrangeiros.








domingo, 25 de abril de 2010

República, quinta-feira, 25 de Abril de 1974

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A 2ª e 3ª edição do Jornal "Republica" do dia 25 de Abril: em baixo pode ler-se "este jornal não foi visado por qualquer comissão de censura". O Director era Raul Rego.


Sérgio Godinho: o primeiro dia

25 de Abril de 1974: Posto de Comando do MFA


Otelo Saraiva de Carvalho


A reportagem do jornalista Walter Medeiros regista as memórias de Otelo Saraiva de Carvalho sobre a longa noite.

A Escolha do Regimento da Engenharia 1 para o Posto de Comando do MFA:

"A escolha do RE-1 para comandar as operações do 25 de Abril partiu de uma sugestão do tenente-coronel Nuno Fisher Lopes Pires, que tinha sido segundo comandante daquela unidade militar até ao dia 6 de Março daquele ano. O capitão Luís Macedo, outro militar do RE-1 e ainda em serviço durante as operações do 25 de Abril, apoiou a proposta e não houve dúvidas em aceitar a sugestão de Lopes Pires, visto que reunia todas as condições necessárias: estar perto de Lisboa, mas fora da cidade, ser uma unidade da confiança do MFA, dar poucas possibilidades de as forças governamentais a descobrirem, dado que se tratava de uma unidade de engenharia e não de artilharia, por exemplo, como seria mais provável.

A Sala de Operações do MFA foi montada num pavilhão pré-fabricado: uma grande mesa ao centro, outras com aparelhos de rádio e telefones, um armário metálico com pistolas e granadas, janelas tapadas com cobertores, uma prancheta de contraplacado, um mapa das estradas do país (do Automóvel Clube de Portugal) e algumas cartas locais. No exterior do pavilhão estava montada uma pequena tenda para o pessoal de transmissões, com antenas vertical e dipolo. Junto ao Posto de Comando, uma camarata improvisada, com camas militares com colchão, travesseiro e duas mantas.

Dali, os sete operacionais comandaram as operações de uma forma surpreendentemente eficaz, ao ponto de as forças do regime só durante o dia 25, já muito tarde, terem descoberto onde era o Posto de Comando e o país o ter sabido na manhã de 26, quando ali se realizou a primeira conferência de imprensa da Junta de Salvação Nacional."

sábado, 24 de abril de 2010

A verdadeira história da senha do 25 de Abril de 1974

A verdadeira história da senha do 25 de Abril de 1974, revelada em texto de Carlos Albino, pelo Diário de Notícas de 24 de Abril de 1999
O acontecimento menos conhecido de todos é o da combinação da "senha" difundida pela Rádio Renascença para a saída das tropas dos quartéis no próprio dia 25 de Abril de 1974. A sua escolha fez-se no bairro de alvalade, onde tinha igualmente a sede a empresa radiofónica que emitia programa "Limite" que pôs no ar a célebre canção "Grândola Vila Morena


Regência de estúdios em 1974 com o técnico da Renascença. Era fundamental assegurar a continuidade de emissão. Foi o que aconteceu


Era meia-noite, 20 minutos, 19 segundos


Passaram 25 anos desde aquele momento em que eu e o Manuel Tomás nos vimos directamente comprometidos e cúmplices conscientes na senha para o arranque simultâneo dos militares que decidiram acabar de uma vez por todas com uma ditadura que matava o País com uma morte que não se via. Durante este tempo todo, os únicos responsáveis directos pela execução e transmissão da senha têm assistido ao mais lamentável desfile de vaidades por parte de gente e até de forças políticas que indevidamente têm querido apropriar-se desse gesto. E o que é mais lamentável é que, tendo este País tantos historiadores, quase nenhum destes quis acertar com a verdade sobre factos recentes e autores vivos. Em matéria de senhas do 25 de Abril, tem havido para cada um a sua senha.

Otelo é que, no fundamental, tem dito sempre a verdade no seu legítimo ponto de vista de comandante operacional do 25 de Abril. E, diga-se, também pouco mais interessará do que esse ponto de vista, pelo que os responsáveis efectivos pela execução e transmissão da senha jamais ao longo destes anos tentaram meter-se ou insinuar-se nessa área em que Otelo fala por direito próprio, como também, depois que foi comunicada e confirmada em definitivo a senha escolhida pelo Movimento, jamais incomodaram os militares operacionais com questões que apenas passaram a fazer parte da responsabilidade de quem, independentemente do risco (ao lado do local da emissão da senha estava o Governo Civil, pejado de polícia de choque, e em linha de vista a própria sede da PIDE), assumiu o firme compromisso de a transmitir e no momento exacto. Foi o que aconteceu e também isto foi importante.

Ora, a partir do momento em que ficou assente que para o arranque do movimento militar seria necessária uma senha transmitida através de uma estação de rádio com efectiva cobertura nacional, as escolhas não eram muitas. Uma das escolhas seria o Rádio Clube Português, que haveria de ser pensado para posto de comando do Movimento após ocupação militar das instalações, e transmitir previamente uma senha por aí seria uma imprudência de toda a ordem. Outra escolha possível seria a antiga Emissora Nacional, mas não se via lá dentro alguém com capacidade de intervenção e iniciativa para actuar àquela hora ou mesmo a qualquer outra hora, pois os democratas nessa altura não abundavam por lá. Restava a Rádio Renascença e dentro desta o "Limite", um programa independente que, pelo aluguer de instalações e antenas para as suas emissões, pagava por mês o equivalente em moeda actual a 4500 contos

O programa, à data da preparação final do movimento militar, tinha no núcleo duro dos seus decisores Marcel de Almeida (um amigo de longa data de Melo Antunes), Leite Vasconcelos e Manuel Tomás (vindos de Moçambique com indesmentivel currículo de democratas) e o signatário.

Como não acontecia com qualquer outro programa de rádio, o "Limite", que era transmitido em directo, era alvo de duas censuras: uma que era a da própria Rádio Renascença e a outra a oficial, exercida por um coronel cujo nome neste momento não me ocorre mas de que conservo as garatujas de assinatura, instalado na Renascença exclusivamente para actuar sobre o "Limite" (por tanto recebia o equivalente hoje a 300 mil escudos, quantia obtida através do aumento do aluguer das antenas ao "Limite" - ou seja, o programa pagava indirectamente ao seu próprio censor...

E quanto aos célebres Emissores Associados de Lisboa, o que era isso? Essa rede de fracos emissores mal se ouvia em Lisboa (nas zonas baixas da cidade a sintonia era impossível). Seria impensável a transmissão de uma senha para todo o País através dos Associados. O sinal que consistiu em E depois do Adeus serviu e bem como primeiro toque para uns poucos operacionais e, diga-se já agora, serviu também para quem no "Limite" estava com aviso.

Mas por aí houve uma fase em que toda a gente corria para as senhas de Abril, para os símbolos de Abril, para as condecorações de Abril, para os heróis de Abril, e no meio de tanta distracção chegou a dizer-se que o sinal dos Associados serviu para todo o País, pouco faltando para se garantir que quando o Paulo de Carvalho apresentou tal canção para o concurso televisivo já o tinha feito a pensar no MFA, na noite do 25 de Abril, na libertação dos presos políticos, no fim da censura e no termo da guerra colonial. Que José Afonso assim já pensasse (e de há muito) quando escreveu, cantou e gravou a Grândola, não duvido.

Mas devo dizer, agora que passaram 25 anos e no que está relacionado com o que me pediram, que apenas dois civis tiveram conhecimento do processo que culminaria com a senha do 25 de Abril: Manuel Tomás e quem dá testemunho nestas linhas. Álvaro Guerra foi um precioso elemento de ligação e naturalmente que não foi ouvido nem achado para a execução da senha; Leite Vasconcelos, que no seu dia de folga deu a sua voz a tudo o que tinha que ser dito nos exactos 11 minutos de duração do bloco previamente submetido às censuras; o estagiário de locução que estava na cabine (não quero dizer o nome antes que o encontre porque é um dos que têm andado para aí a mentir) estava longe de imaginar o que se iria passar e nada justificava que se lhe dissesse o que estava em jogo; a regência de estúdios onde em todo o caso poderia ser interrompida a emissão caso tivesse ocorrido alguma denúncia, estava debaixo de olho. Mas, acima de tudo, devo aqui testemunhar que o Manuel Tomás, para além de uma lealdade total, foi uma peça-chave para o êxito da pequena coisa que foi pedida - a senha.

A caminho do limite

22 de Março. Informação inicial sobre a inevitabilidade de uma senha por rádio com efectiva cobertura nacional para o arranque dos quartéis.
29 de Março. Ensaio no Coliseu (festival da Casa da Imprensa) sobre a aceitação de Grândola. O festival foi gravado e transmitido em diferido pelo Limite.

23 de Abril, fim de manhã. Álvaro Guerra é o elemento de ligação com Carlos Albino, a quem pede a transmissão da canção Venham mais Cinco no Limite de 25 de Abril. Carlos Albino pede a Álvaro Guerra para devolver a resposta de que tal canção estava proibida pela censura interna da Renascença embora a censura oficial a tolerasse. Sugeridas alternativas, entre as quais Grândola.

24 de Abril, 10 horas. Álvaro Guerra novamente serve de elo de ligação de Almada Contreiras com Carlos Albino, a quem comunica a escolha definitiva de Grândola Vila Morena como senha para o movimento militar. Carlos Albino garante a transmissão.

24 de Abril, 11 horas. Carlos Albino adquire na então Livraria Opinião, a Madeira Luís, o disco "Cantigas de Maio" para garantia. Desde Dezembro de 1973, havia indícios de que a PIDE preparava o assalto dos escritórios do Limite, na Praça de Alvalade.

24 de Abril, 15 horas. Encontro decisivo com Manuel Tomás, para a execução da senha e garantia de transmissão face às duas censuras que o Limite enfrentava: a da Rádio Renascença e a oficial (um coronel que acompanhava as emissões em directo e visava previamente os textos). Carlos Albino e Manuel Tomás decidem sair dos estúdios para um local onde possam prosseguir com segurança o diálogo.

24 de Abril, 15 e 30. Ajoelhados na Igreja de S. João de Brito e simulando rezar, Carlos Albino e Manuel Tomás combinam todos os pormenores técnicos da senha.

24 de Abril, 17 horas. Leite Vasconcelos (em dia de folga na locução do Limite) é convocado por Manuel Tomás para "gravar poemas". Carlos Albino escreve textos para serem visados pelo censor.

24 de Abril, 19 horas. Censor autoriza textos e alinhamento.

24 de Abril, 20 horas. Na Renascença, gravação dos textos por Leite Vasconcelos, desconhecendo o objectivo.

25 de Abril. Aos 20 minutos e 19 segundos, arranque da fita com a senha. Carlos Albino e Manuel Tomás retiram-se da Renascença às 3 e 30.

Que vasta galeria de falsos heróis

A senha, com as características com que foi pedida (leitura da primeira quadra de Grândola, transmissão integral da canção e repetição da quadra inicial), era à partida de difícil execução e transmissão num programa que estava debaixo de duas censuras: uma, relativamente tolerante e até em certos momentos pactuante, montada pela Renascença, e outra, braço directo da censura oficial a actuar exclusivamente sobre o Limite.

É lícito recordar isto, pois não são poucos os que têm procurado fazer a contrafacção da senha, chegando a pôr em causa a palavra e a própria dignidade pessoal das duas únicas pessoas (e não mais) que têm a ver directamente com o caso.

Em todo o caso, a leitura das quadras (independentemente de a canção de José Afonso ser permitida) e só pelo facto de ser uma leitura suporia sempre passagem pela censura que chegou a impedir que fizéssemos momentos de silêncio (as brancas como se diz na gíria da rádio). Ninguém hoje pode imaginar a dificuldade que era a de fazer rádio em directo como nós, os do Limite, fazíamos. Era aliás a nossa razão de existir na rádio.

Como é que as dificuldades foram contornadas, com a máxima garantia de que a transmissão da senha não seria interrompida, abortada ou substituída por outro material? Todos os cuidados eram poucos, pois não se passava só connosco - a PIDE conseguia instalar informadores em tudo o que fosse sítio. O Limite não poderia ser uma excepção só por ser Limite.

Como dois a pensar funcionam melhor do que um só, o Manuel Tomás e eu (ajoelhados na Igreja de S. João de Brito, local fantasticamente protegido para conspiração de tal tamanho, pois até o facto de o pároco ser então o antípoda dos progressistas ajudava a que o local obrigasse a PIDE a grandes cuidados), a senha ficou combinada nestes termos: eu escreveria dois poemas para justificar a chamada a serviço do Leite Vasconcelos, que estava em dia de folga, os textos seguiriam para o censor, o Manuel Tomás, segundo um alinhamento combinado, faria a engenharia final da peça, no domínio estético e técnico. Este modo de actuação não daria grandemente nas vistas: o Limite assentava na sua maior parte sobre textos poéticos meus lidos sempre, àquele época, pelo Leite de Vasconcelos e trabalhados também sempre segundo os belíssimos esquemas que somente a sensibilidade artística de Manuel Tomás conseguia nas circunstâncias em que trabalhávamos.

Assim foi.

O alinhamento foi redigido, em resumo: quadra, canção Grândola, quadra, poema Geografia, poema Revolução Solar e para finalizar a canção Coro da Primavera.

Os censores (da Renascença e o coronel) viabilizaram os textos sem hesitações: a "geografia" falava dos rios portugueses e a "revolução solar" falava de planetas e galáxias... Para eles, isto não tinha "política". Viabilizados, os textos foram lidos pelo Leite de Vasconcelos e gravados a seco, sendo pouco depois trabalhados sonoplasticamente pelo Manuel Tomás. O bloco ficou com 11 minutos, o que era habitual no Limite. Tudo se fez como se tudo fosse o mais normal. O que não tem sido normal é o aproveitamento que nestes 25 anos se tem feito da senha.

Vou esforçar-me para não dizer nomes, pois estamos em época de concórdia, mas recordo que surgiu um e garantiu que escolheu comigo o disco da senha. Não escolheu nada. Surgiu outro e garantiu que a senha foi o Depois do Adeus - e bem se viu o triste espectáculo e as tremendas confusões que fizeram nas comemorações do 25 de Abril que decorreram em Santarém. Ora isso não foi senha, por amor de Deus!

Outro que nem era do Limite deixou-se filmar para um alegado documentário sobre a senha que percorreu o Alentejo, sendo aqui recebido como herói. Não era. E outro que até era do Limite - não resisto a citar Leite de Vasconcelos - deixou-se filmar pelo musicólogo Fernando Matos Silva para alegada "reconstituição do cenário". Não era. A voz foi dele, mas ele estava longe do estúdio e mais longe ainda do que a senha significava.

Reportagem no ar sem hesitação

As primeiras reportagens sobre o 25 de Abril e o que estava a acontecer nas ruas da capital, solicitadas como serviço a Adelino Gomes, a quem foram disponibilizados meios profissionais adequados, foram transmitidas por responsabilidade do Limite.

Os noticiários da Renascença até 27 de Abril continuaram com reservas sobre a queda da ditadura e ninguém esperava que o MFA fosse ocupar o Rádio Clube Português para mandar fazer reportagens... A Emissora Nacional dava música clássica e quanto aos Emissores Associados, ninguém ouvia nem podia ouvir isto.

Os primeiros debates políticos com intenção deliberadamente pluralista aconteceram no Limite. Mas também todo este sonho acabou no dia 8 de Junho de 1974, após a transmissão da primeira entrevista com Arnaldo Matos (na presença de Fernando Rosas, o historiador deve recordar bem a cena) e depois de terem sido ouvidas personalidades dos mais diversos quadrantes.

A Renascença acabou com o Limite trocando-o pelo efémero "Voz dos Trabalhadores" decidido em plenário, onde também ninguém se solidarizou com as circunstâncias que ditaram o fim do contrato firmado entre o Limite e a Renascença.

Não foi difícil perceber que a colisão frontal entre o Limite e a administração da Renascença de então resultou do facto de se ter usado a estação para a transmissão da senha. Até hoje, ao que se saiba, nunca a estação assumiu como ponto de honra o facto de ter acontecido nessa casa o gesto que significou a mudança radical da vida portuguesa, pois, se o fizesse, dificilmente poderia evitar a alma do Limite que tem todos os motivos para descansar em paz.

Até ao último momento da existência do programa ninguém compreendeu como a Igreja perdeu uma oportunidade excelente para, logo em 1974, sair da sexta-feira pouco santa da ditadura para decididamente entrar no dia de ar livre da ressurreição que começou a ocorrer apenas passados anos, limitada e tardiamente.

Digamos que sobre o Limite caiu uma espécie de maldição impensável e da qual, por certo, nestas páginas de alguma forma se livra tendo sido necessário deixar passar estes 25 anos para que se diga à vontade o que jamais pode ser entendido como defesa de causa própria. Na verdade, algo de fundamental para a Revolução do 25 de Abril faz parte do património disso que hoje é já mera lembrança e simples recordação, mas que para aquela grande parte de uma geração a entrar nos 40, 50 e 60 que não perdeu ou não quis perder a memória, continua a ser a evocação suave de uma deliberada cultura de sensibilidade e da fragrância de um perfume com as possíveis palavras rasgadas nas noites de terror.

Não se está a sugerir o descerramento de uma placa à entrada da Renascença, nem outra coisa qualquer. O que se sugere é que já era altura de a Renascença assumir o Limite como facto importante da sua biografia, como altura é dos historiadores e candidatos a isso serem mais rigorosos e precisos, quanto a nomes, horas e formas. Sobretudo, ouvindo quem fez sobre o que fez.


PRÉMIO. O último Limite acabou em 8 de Junho de 1974. Foi a suprema censura

Texto visto na Escola Básica do 1º Ciclo de Trouxemil

quinta-feira, 22 de abril de 2010

A Hora da Liberdade Sic - 1/4











A Hora da Liberdade Sic - 3/4











A Hora da Liberdade Sic - 4/4











terça-feira, 16 de março de 2010

A revolta das Caldas da Rainha



"Em 16 de Março de 1974 uma coluna de cerca de 200 militares do Regimento de Infantaria 5 (RI 5), das Caldas da Rainha, marchou para Lisboa, pensando que estava em marcha o golpe que derrubaria o Governo de Marcelo Caetano. Os actores desta tentativa frustrada não sabiam que tinha sido o ensaio geral que levaria ao 25 de Abril.

A "revolta das Caldas", como ficou vulgarmente conhecida a tentativa dos homens do RI 5, foi uma resposta directa ao acto de demissão, pelo Governo de Marcelo Caetano, dos generais Francisco da Costa Gomes e António de Spínola dos cargos de, respectivamente, chefe e vice-chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas. Foi, ainda, uma reacção emocional, militarmente activa, contra a sessão de obediência ao Governo de Marcelo, por este organizada, e que teve por actores a esmagadora maioria dos oficiais generais e da hierarquia das Forças Armadas - "o beija-mão", no dizer dos capitães, que teve lugar no dia 14 de Março, quatro horas antes de Costa Gomes e Spínola serem demitidos, por se recusarem a comparecer.

Como retaliação deste movimento cerca de duas centenas de oficiais, sargentos e praças foram detidos. Entre eles, todos os oficiais do RI 5 que faziam parte do movimento (Virgílio Varela, Fortunato de Freitas, Ivo Garcia, Silva Carvalho e outros) e importantes homens do sector spinolista do movimento relacionados com a revolta (Manuel Monge, Casanova Ferreira, Almeida Bruno, Marques Ramos). No 25 de Abril, uma parte importante dos oficiais mais perto do general Spínola - que o Governo considerava o sector mais perigoso do Movimento dos Capitães - encontrava-se detido no Estabelecimento Prisional Militar da Trafaria."

http://zeventura.blogspot.com/2007/03/revolta-das-caldas.html

segunda-feira, 15 de março de 2010

PPD - longínquos tempos de 1974




domingo, 14 de março de 2010

14 e 15 de Março de 1974

Marcelo Caetano recebe Oficiais-Generais dos três ramos das Forças Armadas, numa reunião que ficou conhecida como a "Brigada do Reumático", no intuito de tentar provar que o regime tinha tudo sob controlo.

Discurso de Marcelo Caetano a 14 de Março de 1974 aos oficiais leais ao governo.



15 de Março de 1974
Demissão dos Generais Costa Gomes e António de Spínola por se terem recusado a participar na "Brigada do Reumático".

quinta-feira, 11 de março de 2010

11 de Março de 1975

Três vídeos documentando: breves acontecimentos que culminaram no "11 de Março de 1975"; e do 11 de Março até ao dia 25 de Abril de 1975, dia das primeiras eleições livres para a Assembleia Constituinte

Primera parte


Segunda parte



Terceira parte



......"A data de 11 de Março marca o momento mais crítico do Processo Revolucionário quando: «Subitamente na manhã de 11 de Março a zona do aeroporto de Lisboa é sobrevoada por caças T6 e helicópteros. A surpresa estampa-se nos rostos quando se ouve o estrondo das explosões. O RAL 1 sofria um bombardeamento.

Pára-quedistas cercavam o aquartelamento de confiança do COPCON. Quem lhes armara o braço começara muito antes. Spínola, o general que não sabia perder. A presença dos pára-quedistas começara a ser preparada no verão anterior. O trabalho de os enganar começara aí».

O diálogo que se trava entre o Comandante da tropa pára-quedista atacante e o Capitão Dinis de Almeida é patético. O primeiro dizendo que tem ordens para atacar e ocupar o RAL 1, mostrando um "panfleto" que retirou do bolso para sustentar a acção; o segundo invocando a sua integração na hierarquia de comando legalmente estabelecida e o seu dever de defender a Unidade e perguntando se o ataque se baseava naquele "panfleto" que desconhecia até àquele momento.

A resposta do Oficial pára-quedista é reveladora da origem do golpe contra o MFA que se procurava levar avante: «Não. Atrás disto existem uma série de "altas individualidades" que não estão contentes com a maneira como está a ser conduzida a democracia do nosso país...».

A acção termina quando os soldados pára-quedistas sentem que foram enganados pelos seus comandantes e marcham para o RA 1, desarmados, abraçando os camaradas daquela Unidade e dando vivas ao MFA. Porém, não se evitou o bombardeamento da Unidade por parte dos T6 que sobrevoavam o aquartelamento, do que resultara a morte de um militar.

Decorrente deste ataque o MFA toma uma série de medidas de que há a destacar a nacionalização da banca e a institucionalização do Conselho da Revolução em cuja tomada de posse o PR, Gen. Costa Gomes, afirmou: «... Como é público, estes actos políticos estavam previstos mas em relação a eles os acontecimentos do 11 de Março foram o catalisador que veio acelerar um processo indispensável. ... Iremos criar uma Assembleia Geral do MFA que represente em termos progressistas o sentido autêntico de todas as FA, do General ao Soldado».

Este trabalho jornalístico termina com uma referência ao Pacto MFA/Partidos e com imagens dos portugueses a votar nas primeiras "eleições livres" que ocorreram em Portugal após o Movimento Libertador do 25 de Abril."

RTP: Um Ano de Revolução - 1974 e 1975

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Fuga de Peniche 50 anos depois



"Já lá vão 50 anos. Corria o dia 3 de Janeiro de 1960, 10 reclusos comunistas, Álvaro Cunhal e outros nove presos políticos, proporcionavam à PIDE um dos piores dias da Ditadura."

domingo, 29 de novembro de 2009

O 25 de Novembro de 1975 visto por alguns dos seus protagonistas



quarta-feira, 24 de junho de 2009

O bloqueio da Ponte 25 de Abril faz hoje 15 anos

"Há quem diga que foi o princípio do fim do governo liderado por Cavaco Silva. Aconteceu quando dezenas de camionistas bloquearam a travessia contra o aumento das portagens, aumento destinado a custear a construção da ponte Vasco da Gama." >>>

Os protestos da Ponte 25 de Abril a 24 de Junho de 1994 têm em Luís Miguel Figueiredo a principal vítima. O rapaz, então com 18 anos, e as notícias sobre o bloqueio contra o aumento de 50% da portagem, aguçaram-lhe a curiosidade, levando-o já de madrugada ao tabuleiro da ponte, onde se encontravam os populares.



"Às bastonadas da GNR, seguiram-se os tiros da PSP. Faltavam 14 minutos para as 04.00 quando uma bala entrou pelo lado esquerdo do tórax de Luís Miguel, perfurou um pulmão e danificou a quarta vértebra dorsal, comprometendo a medula. O jovem trabalhava na construção civil e nunca mais conseguiu deixar a cadeira de rodas, apesar dos muitos tratamentos, alguns dos quais na China.

Responsabilidades. Na altura dos confrontos, os comandos da PSP e o então ministro da Administração Interna, Dias Loureiro, garantiram que não haviam sido utilizadas balas verdadeiras e que os polícias tinham disparado para o ar...

...O jovem apresentou um processo-crime contra a autoridade policial. No tribunal ficou provado que as balas eram reais, mas não se conseguiu encontrar o autor dos disparos, tendo o caso sido arquivado em finais de 2003.

A manifestação contra o aumento das portagens ficou registada como um dos maiores movimento de desobediência civil desde o 25 de A
bril." >>>

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